Farmville
December 22, 2009
É o dia mais longo do ano, e não estou a falar do solstício de verão, mas sim daquele em que chego aos trambolhões a Lisboa, depois de tantos voos como escalas em aeroportos pouco familiares.
Tenho carro alugado, mas não tenho mala, pois esta por capricho não aparece na passadeira.
Nada a fazer, toca a preencher o formulário, entre camaradas desprovidos de bagagem.
Oiço uma “camarada” brasileira arriscar prioridade no atendimento : “mas eu tô morrendo de fome, não aguento mais não, tou quase desmaiando, preciso só de um banho e descanso”. A maquilhagem retocada parece-me recente.
Logo há-de aparecer, penso eu…digo eu
Rent-a-car
Seguros extras? Assina aqui, assina aqui também, cartão de crédito, assina mais aqui.
Estou só do lado da trincheira dos clientes. Atrás do balcão tem o funcionário que trata de mim, a Paula e uma colega da Paula… que também é colega do senhor que trata de mim.
- Oh Paula, como é que isto funciona? – Pergunta a colega da Paula
E eu a pensar
…Fodasse e se a mala nem saiu da Indonésia?…
- Podes fazer uma extensão, mas tenta organizar bem, assim ganha-se mais dinheiro
…Foram os cabrões dos Italianos, eh pá esses gajos, não tomam conta de nada…
- Olha, eu faço imenso dinheiro, tenho já 10.000, mas já lá não vou há 3 dias
A Paula está visivelmente entusiasmada, e eu fodido
- Eu só cultivo coisas que dão dinheiro, agora é melancias, mas tenho de esperar 5 dias para poder vender.
…Hong Kong tá fora de questão, tão organizados, sempre a transportar velhinhos em carros de golf que além de acelerarem pra caraçãs tem umas sirene filhas da mãe…Nã, já sei que foram os Italianos, esses gajos pá…
- A mim ofereceram-me uma caixa de correio, linda em Pedra.
Ao que a Paula Responde – mail box? Ah já tenho há tanto tempo, a minha é muito linda também.
Percebo que me sai um nissan micra, não reajo, quero desaparecer
…mas senhor dai-me a minha mala hoje…
Ainda olho para trás para ver a colega da Paula baralhada com a gestão da quinta, e a Paula…a Paula, empresária de sucesso sim, em pleno gozo merecido do rendimento da sua quinta…
Desculpem… da sua Farmville
Father figure
December 22, 2009
O massagista que se apresenta agora, é apenas mais um massagista indonésio.
A ideia é não haver muita conversa, pois o desafio é me posicionar no limbo do acordado e assim usufruir do amaciar da minha matéria enquanto estou em transe num estado meditativo.
As caimbras não ajudam, e sou obrigado a voltar ao reino doas acordados para pedir o desligar do AC
Ao fim de uma hora, estou bastante mais relaxado, e muito satisfeito pelo excesso de óleo que me foi aplicado.
Agradeço e saio
Mais tarde encontro o meu terapeuta, a quem inicio a conversa social, de quem está em bali.
Já me disse o nome a meu pedido 3 vezes e não consigo fixar. Estou entre o constatar de um problema de memória ou o encarar a impossibilidade de decorar nomes estranhos com mais de 2 sílabas (o condutor chama-se oki…assim ficou gravado como o oki ok)
Vem de Java, procura uma vida melhor em Bali. Antes era produtor de eventos (casamentos e afins). Diz que era tão rentável como as massagens que agora se iniciou.
O seu verdadeiro motivo em ter emigrado para a ilha do turismo é outra, e comunica-me.
Veio para bali, á procura da figura paterna, pois na sua vida este teve sempre ausente de si e da sua família, ao que parece pelo fado indonésio da poligamia.
“…Yes, I am here looking for a father figure…”
mas até à data ainda não encontrou
Código morse
December 22, 2009
Morse e a psicanálise
Ao ler sobre a história num passado presente, deparo-me frequentemente com a personagem do emissor de mensagens codificadas, através do código Morse.
Além de pertencer a um passado em tons de sépia, com o romantismo da época, admiro a destreza dos emissores destas mensagens, que apesar de parecer simples, refugio-me na minha capa de mero admirador, sem querer sequer aspirar a tal aptidão.
Ao que parece todo o alfabeto está codificado, e com as telecomunicações tão rudimentares da época, era a melhor e mais fiável maneira de comunicar.
Penso nesta linguagem, e penso na psicanálise humana.
Também nós através de sinais tão simples acabamos por nos relevar de um modo, que basta ter um emissor atento (sem sequer a aprendizagem obrigatória da leitura do código Morse) para entender que a mensagem apesar de nem sempre ser desejada é clara.
Um dos meus desafios enquanto nobre humano, tem–se prendido com a simplificação total da vida. Constato que quando simplifico os meus sentimentos, e defino melhor os meus objectivos, deixa de haver menos ruído e matéria superfula, que ajuda a concentrar no caminho da satisfação pessoal.
A cozinha que me dá grande gozo criativo, também têm sofrido desta cruzada. As sessões de desenho que se tem reduzido á utilização do coto de carvão em prol dos lápis de diferentes cores.
São inúmeros os exercícios a que me tenho submetido, que sendo não mais que experiências têm a lotaria de diferentes resultados possíveis, e nem sempre saí o que gostavamos de ter.
também aqui, o aceitar do que a vida nos reserva, é uma das maiores proezas, pois nem sempre estamos preparados a abraçar o inevitável, e claro que o devemos fazer de modo a estarmos mais acordados e alertas para a realidade… já me cheira a budismo nesta parte.
A bondade, se existe em mim, tem sido encarada não diferente da “filosofia de cordel” de que escrevo.
O maior desafio a quem se dispõe a dar, é o mais simples de todos, e prende-se com este exercício neste só sentido. Não querer receber.
Não querer receber, se se dispõe apenas a dar, coloca-nos numa aventura emocional alta, onde o altruísmo, o poder de poder dar, a gratificação com a vida em podermos assim encontrar espaço para partilhar, se podem rapidamente cobrir de cores diferentes revelando uma posição menos clara sobre o principio básico.
Um cenário não diferente do palco da vida humana, é o Orfanato onde me desafiei a “dar” um pouco daquilo que melhor sei fazer…contas, com português e criatividade. A tudo isto se mistura as relações humanas que naturalmente surgem entre todos nós, e assim somos forçados a sair de uma sala de aulas e dou por mim errante num novelo emocional.
Não posso deixar-me levar pelos sentimentos rasantes de querer reconhecimento pela minha “bondade”. Aqui estou consciente, pois o sabor amargo já me parou nos lábios, mas com maturidade, soube limpá-lo.
Não me deixo afectar pelo facto de que acções paralelas de outros originem nas crianças, que são afinal o objecto do exercício desta “bondade”, fogo de artificio maior do que a minha chama. Aqui , já assisti à sombra fria da ira se apoderar de quem desviante procura protagonismo, num cenário onde não há palcos.
Não me posso deixar afectar pela malha matricial mundana de injustiça que cai sobre o que deveria ser um espaço seguro
E não me deixo afectar.E assim decido continuar o que há já algum tempo me desafiei a fazer, sem ter sido retribuído som festas, obrigados, grandes abraços e fotografias.
Continuo a sorrir e a dizer baixinho…missão cumprida
Fiumicino
December 22, 2009
Dou por mim afectado pelo cansaço das viagens longas, dos hangars de aeroporto, das saudades do bacalhau, do baralhanço horário.
Um ano atrás era idêntico, mas estava em Frankfurt, com as diferenças técnicas e humanas que estes dois sítios acarretam. Aqui a senhora da limpeza fala comigo com a familiaridade natural. A sua colega não me explica onde é o multibanco, leva-me lá. Não há protocolo, para o bem e para o mal.
Gosto mais daqui. Um ano atrás escrevia textos enquanto esperava o último voo. Volto a repetir a odisseia. Afinal somos animais de hábitos.
casado e com filhas
September 20, 2009
Apareceu aqui a mana da limpeza que disse ao Carlos que senhor queria falar com sr. Paulo. Levanto-me e vou à procura desse senhor. Pergunto à mana onde esta que a gesto meio animal la me diz que a direção é a da porta. Vou até la fora e vejo uma mulher e um homem policia.
eu: bom dia, sr Paulo não está. Porque querem falar com ele?
eles: é uma queixa
eu: uma queixa??? queixa de que?
eles: de Senhora Rosalina
eu: de que ?
eles:abandono
eu: o que???. Deixe-me ver o papel
eles: aqui………………………
eu: mas sr. Paulo nem tem esse nome e é portugues e não tem filhas
eles: mas aqui diz piso superior, Western Union
eu: sr paulo é portugues e aqui só CRA e DALAN
eles: da numero telefone da sra para confirmar
eu: não tem que dar numero. Sr paulo não é essa pessoa
kechak + fire dance
September 20, 2009

check check check check
bracejar e entrar em trance
check check check check
as princesas, o rei, e o travesti
check check check check
agora o faquir, o fogo, a fumarada, e o francês assustado
check check check check
“sorry for the power off, hope you enjoyed, you can now take pictures with the actors”
check check check check
check check check check
“the famous women kechak dance!!… you have seem it?…need a taxi??”
para sempre
September 20, 2009
entre livros e poemas, consigo sentir que existe a fugaz eternidade, e aí quero ficar para sempre
de noite
September 20, 2009

Anito Kanito
August 31, 2009
O truque é simples
É com muita calma para não espantar os gajos
devagarinho, movimentos suaves, e boas maneiras
lá se tira a custo…e já tá foto
a seguir é chamar para mostrar o que de digital tem melhor, e aí sim começa a festa
este a rir, o outro a gritar, e a gente tem de agir rápido para cativar os gajos
“este, este como se chama?” e há logo um que se desbronca ” Anito!!”
O Anito nesta altura já foge, por isso é bom que arranje uma rima e rápido
“Anito Kanito!!”
Parece que pega
Há risada e o gajo até entra na brincadeira
entre Cristianos e Princesas a turma já vai em mais de 50, e assim se forma a comitiva de despedida, com gritos, e muitos sorrisos
No momento em que o os motores roncam, só me permitindo ouvir as coordenadas que piloto fornece a quem eu não sei nos meus auscultadores (pois aqui não há torre de controle) e sob pena, de já em movimento, perder a visualização do porco que apareceu em grande corrida à minha frente na pista que se encurta, não resisto e olho para trás para os ver,
e eu que nem gosto de despedidas, digo eu
pó para borbulha
August 18, 2009
O Anastácio está a estudar dinâmica para o exame final de física amanhã. Começou há pouco e mesmo assim não dispensa estar perto da animação da casa, junto dos outros, perto da TV ligada, que em breve vou conseguir desligar de modo a ter descanso para explicar química a quem a estudou em língua Indonésia.
Sento-me ao lado dele e a juntar ao sorriso fabuloso que tem noto toda uma nuvem de brilhantes a lhe compor a tez. Com mais atenção descubro a ponta do véu de pó espesso que lhe cobre a fonte do lado esquerdo a qual ainda não tinha visto.
Sorri e explica-me perante os risinhos dos outros, que é para tratar as borbulhas, medicina tradicional, que o irmão João veterano agora curado do acne credita o famoso produto.
Os risinhos aumentam e entram no campo da troça, que o Anastácio não gosta.
Nunca lhe vi borbulhas e questiono se será necessário usar tal máscara. Mostra-me que sim, que tem, mas eu não consigo ver. Risinhos aumentam, e chegam à provocação.
“E eu não posso usar produto se eu quero?” já irritado
“Claro que podes” – respondo-lhe, anulando os seus agressores.
ganho em troca um sorriso escancarado, um encontrão de amigo, e um pouco do pó no ombro, que tento conservar por hoje.